O Templo do Prazer Macabro

O deleite do tétrico no Théâtre du Grand-Guignol!

Houve um dia um teatro de horror , profano e violento, em cujo palco se verteu muito sangue , onde globos oculares foram perfurados , caindo das órbitas e rolando pelo chão, e onde mãos, línguas e orelhas foram grotescamente extirpados , apavorando a platéia com medo e repugnância.

O Théâtre du Grand-Guignol – Teatro do grande fantoche – foi tão importante enquanto atração turística parisiense como a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo. O repertório retratava o Mundo Cão, apresentando um retrato realista dos piores excessos do animal humano.

O sucesso era medido pelo número de desmaios e golfadas de vômito que provocava, tanto que por isso (e para fazer crescer o buzz) havia um médico de plantão pra acudir os mais nervosos. Provavelmente riríamos disso hoje, mas imagina toda essa fúria sangrenta durante uma era de ouro, beleza e idealização como foi a Belle Epóque?

A ética prevalecente era a da ‘crueldade sem redenção’. Vilões impunes e vítimas trucidadas, inexoravelmente. Nas peças, geralmente curtas, uma salada de frutas de estilos: combinava-se atuações naturalistas e melodramáticas, uma estética simbolista (por vezes surrealista) em uma linguagem de submundo, forte para os padrões de então, mas permeada com uma fina ironia dramática .

Claustrofobia opressiva

Localizava-se na zona do sexo, num território proibido (sim, a sociedade freqüentava… ). O prédio da Off Pigalle ficava na rua Chaptal em um ‘beco sujo’. O espaço era perturbador de tão intimista – quase 300 pessoas socadas numa área de 20 por 20. A função ocorreu de 1897 a 1962, na capela de um antigo convento destruído na Revolução Francesa. Ou seja, tudo muito dramático desde sempre.

Montanha russa emocional

Uma noite de entretenimento no Le Grand-Guignol envolvia o público em um sistema chamado ‘La douche écossaise ’, uma espécie de experiência bi-polar dramaticamente provocada: peças de horror sangrento intercaladas com comédias cheias de traquinagens físicas, lembrando a Commedia dell´arte.

Tal estrutura, o ‘Chuveiro Escocês’, foi a chave para alcançar o efeito emocional desejado. Ele fez o terror mais terrível e a comédia ainda mais engraçada. Eis a técnica predominante no cinema de terror de hoje, onde visivelmente os gêneros se ‘casaram’.

Segundo a análise do cômico-grotesco pelo filósofo e pensador da linguagem humana, Mikhail Bakhtin, o horror e a comédia são parceiros e não opostos. O que ajuda a explicar um elenco tão versátil (e disciplinado) ao se alternar por horas através de estilos tão contrastantes. A grande dama Paula Maxa descreveu a atmosfera típica de um desempenho como sendo “ Tenso, os nervos à flor da pele, a menor coisa podia desencadear o riso”. Evidentemente eram artistas muito hábeis e concentrados, afinal como não rir em cenas como estas?

Introdução do ecossistema do submundo

Estreando com linguagem própria e crueza naturalista igualmente chocantes, vagabundos, meninos de rua, prostitutas, virginais infantilizadas, criminosos e ‘apaches’. Os personagens geralmente se dividiam em sádicos truculentos e dementes vs. vítimas infelizes fadadas à má sorte e à invisibilidade total. Os amantes e os amigos rotineiramente traíam um ao outro.

Só ocasionalmente apelava-se ao sobrenatural. A essas alturas já elevado a um estilo teatral, o Grand Guignol , ampliou-se incrementando os limites da bestialidade: introduziu o uso de drogas e as experiências hipnóticas. Uma nova safra de sádicos entra em cena e mais um monte de novas mazelas psicopáticas: perda de consciência, perda de controle, pânico e surtos. O repertório trilhou do excesso de sangue para os dramas psicológicos.

“A mulher mais assassinada no mundo”

A atriz e diva-mor do gênero Paula Maxa, conhecida como ‘a Sarah Bernhardt da Chaptal Impasse’ foi submetida a uma série de torturas ímpar na história do teatro e cinema.

Ela foi morta 358 vezes (sim, contaram) – eis o menu:

A atriz já ‘morreu’ baleada , escalpelada, estrangulada, estripada, estuprada, guilhotinada, enforcada, esquartejada, queimada, cortada com ferramentas cirúrgicas, cortada em oitenta e três peças por um punhal espanhol invisível (?), picada por um escorpião, envenenada com arsênico, devorada por uma onça-parda e estrangulada por um colar de pérolas, além de ter morrido chicoteada inúmeras vezes . Ela também foi beijada e lambida por um leproso, e submetida a uma metamorfose asquerosa. Um abismado crítico de teatro da época: “Por duzentas noites seguidas, ela simplesmente era decomposta no palco diante de uma platéia.”

OBS: – Aos atores: morram de inveja de todo esse jogo cênico (eu morri).

La decadence

Nos seus últimos anos, com a concorrência de filmes de terror de Hollywood e os pesadelos acumulados das guerras, o Grand Guignol tornou-se muito exagerado e artificial. Charles Nonon, o último diretor, explicou: “Nós nunca poderíamos competir com Buchenwald. Antes da guerra, todos acreditavam que o que acontecia no palco era puramente imaginário. Agora nós sabemos disso, essas coisas – e muito pior – são possíveis “.

A autora Anais Nin comentou sobre o declínio em seu diário: ”Eu entreguei-me ao Grand Guignol, a sua imundície venerável que costumava causar arrepios de horror tais, que costumavam petrificar-nos com terror.Todos os nossos pesadelos de sadismo e perversão foram jogados fora no palco …. O teatro estava vazio…”

Em 2010, aqui em São Paulo, um raio divino caiu na minha cabeça e, por acaso, esbarrei com uma rara peça do gênero – ‘Com quem fica o coração?’. Teatro alternativo, experimental, livre de expectativas e até por isso com um resultado incrível. O estilo ainda sensacional, que hoje funciona pelo viés do humor negro… Ah, um grande ator em cena: Carlos Meceni, interpretando um médico-legista em pleno exercício da profissão, em uma clínica clandestina de transplantes de órgãos. Bloody. Unforgettable.

Acima, cena do espetáculo ‘Com quem fica o coração?’.

Por Giovana De Figueiredo

Referências:

Sources – O historiador Mel Gordon, em O Grand Guignol: Teatro do Medo e Terror.

‘O que melhor existe sobre grand guignol na internet’

The Biology Horror Gothic Literature

The Gore of Grand Guignol


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